O que é NPS: o Net Promoter Score, e o que ele não resolve
O NPS é provavelmente o indicador mais adotado e mais mal compreendido das últimas duas décadas. Nasceu de uma pergunta só, feita a clientes, com a promessa de que aquele número previa crescimento melhor do que qualquer pesquisa longa. A pergunta continua simples. A promessa não se sustentou inteira, e entender as duas coisas é o que separa usar o indicador de apenas repeti-lo.
De onde o indicador veio
O NPS foi apresentado em dezembro de 2003, num artigo da Harvard Business Review assinado por Fred Reichheld, da consultoria Bain & Company. O título do artigo já carregava a tese inteira: o número único de que você precisa para crescer. A proposta era substituir questionários longos de satisfação por uma pergunta só.
O argumento tinha apelo imediato para quem convivia com pesquisas de trinta perguntas, taxa de resposta baixa e relatórios que ninguém lia até o fim. Uma pergunta responde-se em segundos, pode ser aplicada com frequência alta e cabe num slide sem precisar de explicação.
É por isso que o indicador se espalhou tão rápido, e por isso que ele chegou ao RH duas décadas depois, na forma do eNPS. A adoção não veio de uma prova de que ele mede melhor: veio de ser barato de coletar e fácil de apresentar. São virtudes reais, e é útil saber que são essas as virtudes.
A pergunta, e o preço de ser uma só
A formulação original pergunta ao cliente, numa escala de 0 a 10, o quanto ele recomendaria a empresa ou o produto a um amigo ou colega. A escolha do verbo não é decorativa. Recomendar é diferente de estar satisfeito, porque quem recomenda coloca a própria reputação junto: se a indicação der errado, a pessoa que indicou também paga.
Foi essa aposta que sustentou a tese. A ideia era que a disposição de arriscar reputação prevê comportamento futuro melhor do que uma nota de satisfação, que pode ser dada por educação e não custa nada a quem responde.
A economia da pergunta única é a maior força do indicador e o seu limite mais duro, ao mesmo tempo. Ela produz taxa de resposta alta e permite medir com frequência, e é assim que se enxerga tendência. Mas ela diz que alguma coisa mudou, nunca o que mudou.
Quem adota o NPS achando que trocou a pesquisa longa por algo equivalente e mais barato descobre isso no primeiro resultado ruim: o número cai, e não há dentro dele nenhuma informação sobre onde procurar. Por isso, na prática, quase todo mundo acaba acrescentando uma segunda pergunta aberta pedindo o motivo, que é a pesquisa longa voltando pela porta dos fundos, em versão mínima.
Como o número se forma, e o que ele descarta
As respostas viram três grupos. De 9 a 10, promotores. De 7 a 8, neutros. De 0 a 6, detratores. O índice é o percentual de promotores menos o percentual de detratores, e vai de -100, quando todo mundo é detrator, a +100, quando todo mundo é promotor.
Num exemplo hipotético com duzentas respostas, noventa promotores, sessenta neutros e cinquenta detratores, os percentuais são 45%, 30% e 25%. O índice é 45 menos 25, ou seja, 20 pontos. Os sessenta neutros entraram no total que forma os percentuais, mas não aparecem em nenhum dos dois lados da subtração.
É aqui que está a característica menos compreendida do indicador, e ela vale mais do que a fórmula. O mesmo número pode descrever situações opostas. Uma empresa com 40% de promotores, 40% de neutros e 20% de detratores tem índice 20. Outra com 60% de promotores, nenhum neutro e 40% de detratores também tem índice 20.
A primeira tem uma base morna e estável. A segunda está partida ao meio, com um grupo grande de entusiastas e outro grande de gente insatisfeita, e é uma situação bem mais volátil. O índice não distingue as duas, e quem olha só para ele não tem como saber em qual dos dois cenários está.
A conclusão prática é curta: guarde a distribuição dos três grupos, não só o índice. É o mesmo dado, custa nada a mais, e responde a uma pergunta que o número sozinho não responde.
As críticas que o indicador acumulou
A afirmação central do artigo de 2003 era comparativa: o NPS preveria crescimento melhor do que os indicadores de satisfação em uso. Pesquisadores de marketing tentaram reproduzir esse resultado com dados de vários setores nos anos seguintes e não encontraram a superioridade anunciada. Outras medidas de satisfação previram tão bem quanto, e em parte dos casos melhor.
Isso não torna o indicador inútil, e é importante ser preciso sobre o que a crítica derruba. O que não se sustentou foi a parte do título: a ideia de que este é o número único de que se precisa. Como termômetro de tendência aplicado com regularidade, ele continua servindo.
A segunda crítica é sobre os cortes. Não há lei estatística que faça de 8 um neutro e de 9 um promotor, nem que coloque uma nota 6 e uma nota 0 no mesmo grupo. São convenções, herdadas da proposta original. O que importa é aplicá-las sempre do mesmo jeito, porque o valor está na comparação com o próprio histórico, e mudar o corte no meio do caminho destrói a série.
A terceira é a mais prática: o NPS é fácil de manipular sem mentir. Perguntar logo depois de uma interação que deu certo, escolher a quem perguntar, insistir com quem já demonstrou satisfação. Cada uma dessas escolhas move o número sem que nada tenha melhorado. Quando o indicador vira meta de alguém, essa pressão aparece sozinha, e nem sempre por má-fé.
O que muda ao levar a pergunta para dentro da empresa
A versão aplicada a quem trabalha na empresa é o eNPS, e a pergunta passa a ser o quanto a pessoa recomendaria a empresa como lugar para trabalhar. A conta é a mesma, e é justamente por parecer a mesma coisa que a transposição costuma ser feita sem cuidado. Três diferenças mudam o que se pode perguntar, com que frequência e o que se pode recortar.
A primeira é o risco de responder. Um cliente insatisfeito responde e vai embora, e responder não lhe custa nada. Quem trabalha na empresa continua ali na segunda-feira, e responde sabendo disso. O anonimato deixa de ser cortesia e passa a ser a condição para o dado existir: sem ele, a nota que chega é a nota que a pessoa julga seguro dar.
A segunda é o tamanho da amostra. Base de clientes se conta aos milhares; quadro de funcionários, às dezenas ou centenas. Numa empresa de quarenta pessoas, recortar por área identifica gente, mesmo sem pedir nome, e é assim que uma pesquisa bem-intencionada ensina o time a não responder com franqueza.
A terceira é a relação de poder. Quem responde pode ser avaliado por quem lê o resultado, o que não acontece com cliente nenhum. Isso empurra as notas para cima de forma silenciosa, e o efeito é maior justamente onde o clima está pior, que é onde o dado precisava ser mais confiável.
Nada disso desqualifica o indicador dentro do RH. Significa que a mecânica é a parte fácil, e que o cuidado com anonimato, periodicidade e recorte é o que decide se o número vale alguma coisa. É o assunto do guia de eNPS, logo abaixo, que trata do cálculo, dos erros que invalidam o resultado e do que fazer com a resposta depois.
Perguntas frequentes
NPS e eNPS são a mesma coisa?
Não. A matemática é idêntica (mesmos cortes, mesma subtração, mesma escala de -100 a 100), mas a pergunta e o respondente mudam. O NPS pergunta a um cliente o quanto ele recomendaria a empresa ou o produto. O eNPS pergunta a quem trabalha ali o quanto recomendaria a empresa como lugar para trabalhar. O que muda com isso é tudo o que está em volta do número: o risco de responder com franqueza, o tamanho da amostra e a relação de poder entre quem responde e quem lê o resultado.
De onde vêm os cortes em 9, 7 e 6?
Da proposta original de 2003, a partir da observação de comportamento de clientes nos dados disponíveis na época. Não é uma lei estatística, e não há nada de especial no 9 que não exista no 8. É convenção, e o valor dela está em ser aplicada sempre igual: como o indicador serve para comparar a empresa com ela mesma ao longo do tempo, mudar o corte no meio do caminho inutiliza a série inteira.
Dá para comparar o NPS de duas empresas?
Mal. O número depende de quando a pergunta foi feita, a quem, por qual canal e da cultura de resposta de cada lugar. Duas empresas com o mesmo índice podem ter medido coisas bem diferentes, e a que perguntou logo após uma interação bem-sucedida terá vantagem sem ter nada melhor. A comparação que rende é com o próprio histórico: subindo, caindo ou estável em relação às rodadas anteriores da mesma empresa.
O NPS substitui a pesquisa longa?
Não, e tratá-lo assim é o erro mais comum. Ele sinaliza que alguma coisa mudou, com frequência alta e custo baixo, e essa é uma função legítima. O que ele não faz é dizer o que mudou. Quem abandona a pesquisa detalhada troca explicação por frequência, e descobre a queda sem saber de onde ela veio. Os dois instrumentos funcionam melhor juntos: o índice avisa quando olhar, a pesquisa longa explica o quê.
Como a RHTECH resolve isso
O módulo de Pesquisas & Formulários da RHTECH aplica a pergunta, guarda o histórico e mostra a variação por área ao longo do tempo, que é onde o indicador começa a servir para decidir alguma coisa.
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